segunda-feira, maio 20, 2024
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O menino que trocou a bola pelos palcos e telas

por: Redação

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Rui Ricardo Diaz ainda sonhava ser jogador de futebol quando descobriu o teatro, aos 13 anos. Nascia o ator que já foi Lula, Rondon, cangaceiro e promotor

Rui Ricardo Diaz é um caso raro. Ele descobriu logo aos 13 anos que sua vida era o teatro depois de fazer um curso de duas semanas nas oficinas de Barueri. Ali, ele se achou. E quando o sonho de ser jogador de futebol ainda estava vivo, largou a camisa 10 do GRB e mergulhou de cabeça naquele mundo totalmente novo para o menino do Parque dos Camargos, de família mineira de gente simples, de pai violeiro que só queria que o filho tivesse uma profissão.

O moleque magrelo passou a sair todo sábado de casa só com o dinheiro da passagem do trem para estudar teatro. Quando começou a trabalhar, o salário ia inteiro para a mensalidade de outro curso. Mas ele nunca teve dúvida de que aquele era o seu caminho.

SAO PAULO, SP, BRASIL, 02-10-2012, 15h00: COLUNA BRUNO ASTUTO. Retrato do ator Rui Ricardo Dias, que interpretou o ex-presidente Lula no cinema e agora estréia na novela Lado a Lado, no Praça Buenos Aires. (Foto: Leticia Moreira/ REVISTA EPOCA)
Rui terá um 2016 de novidades: série na Globo e peça nova

E assim foi, atuando, dando aulas, dirigindo, até que, meio por acidente, ele se viu convidado para fazer o papel do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva no filme Lula, o Filho do Brasil. Era 2008, Lula tinha 80% de aprovação, a produção seria a mais cara da história do cinema brasileiro, “sem dinheiro público”, como Rui sempre enfatiza. E ele foi escolhido para o papel que poderia ter sido de Wagner Moura.

Não foi fácil. Foram horas e horas de estudo e ensaio, ele precisou engordar dez quilos, deixar a barba crescer. O filme não foi propriamente um sucesso de público, mas o desempenho de Rui recebeu elogios no Brasil e fora daqui, e deu outro impulso a sua carreira.

Depois de Lula, foram mais quatro filmes, muitos prêmios, a novela Lado a Lado e, pronta para estrear, a série Supermax, ambas da Globo.

Hoje, a família de Rui continua em Barueri, mas ele vive em São Paulo com a mulher, Fany Feldman, também atriz, ali pertinho da Avenida Paulista, um de seus lugares preferidos para passear. Foi em seu apartamento que Rui Ricardo Diaz recebeu a equipe do Barueri na Rede para um papo que durou horas e está resumido aí abaixo.

BnR: Você nasceu em Minas, como foi parar em Barueri?
Rui:  Bem, eu faço parte de todos esses migrantes que em busca de melhores condições de vida, de trabalho, vieram para São Paulo. Isso vem dos anos 50, mas aconteceu comigo no início dos anos 80, quando eu tinha três anos.

BnR: E saiu de lá direto para Barueri?
Rui: Sim, porque eu já tinha tios que moravam lá. Mas eu não sei dizer como os primeiros foram parar em Barueri. É uma família mineira, e um tio que já morava, e que até hoje mora, ali na Vila Porto, perto do Parque Municipal, sempre teve casas de aluguel. E eu me lembro dele cedendo uma casa pro meu pai. Mas ficamos lá só uns 20 dias e logo saímos. Eu morei em quase todos os lugares da cidade.

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BnR: É mesmo? Onde você morou?
Rui: Comecei pela Vila Porto, depois no Belval, em duas ou três casas, todas de aluguel. De lá fui morar no São Pedro, na rua Mônaco, perto do Centro Cultural. Tinha um campo de terra, eu jogava bola ali, e tinha uma favela também. Eu morava num cortiço, com várias famílias. Aí, meu pai comprou uma casa pequenininha lá no Parque dos Camargos, que é onde meus irmãos moram hoje. Tinha dois cômodos e mudamos todos, os seis. Eu tinha uns 14 anos e a gente mudou pra lá. Aí ele foi construindo…

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Em Augusto Matraga, texto clássico de Guimarães Rosa

BnR: E você foi um moleque de rua…
Rui: Totalmente. Joguei muita bola. Eu cheguei quase a jogar profissionalmente. Até os 13 anos eu joguei no GRB, disputei uma taça São Paulo de futebol dente de leite. Mas aos 14 comecei a fazer teatro.  E eu não era um craque, né?

BnR: E a partir daí?
Rui: Eu comecei a fazer teatro, de 13 para 14 anos. Nessa fase já comecei a vir pra São Paulo, a fazer uns cursos livres de teatro, vinha de trem… de vez em quando conseguia jogar futebol. Tinha uns amigos, umas festinhas, eu cheguei a estudar no Ivani…

BnR: Em que escolas você estudou?
Rui: No Elvira, ali no São Pedro; no José Leandro, lá no Parque dos Camargos; e terminei o colégio no Ivani.

BnR: Como é que um menino de 13 anos vai para o teatro? Você era artista, daqueles moleques que fazem piada…
Rui: Eu não era muito popular, não. Era magrelo, feioso, eu não era o pop da escola. Mas meu pai era músico, tocou violão na noite, em dupla sertaneja, música mais de raiz. Acho que isso me influenciou. E na escola eu fazia umas gincanas que tinha umas cenas, até que um professor pediu para a gente fazer uma pecinha, e eu escrevi um texto qualquer. A gente apresentou e ele falou “cara, você tem que fazer teatro, você leva jeito, é engraçado”, aqueles papos, né? Aí, um amigo me disse que tinha um curso em Barueri e eu entrei.

BnR: Nas oficinas culturais (da Secretaria de Cultura de Barueri)?
Rui: Sim, fiz uma oficina com o Cello (o ator Marcello Airoldi) de um mês e meio ou dois. Eu devia ter 13 anos, e foi o suficiente. Disso eu pensei “cara, esse negócio é legal”. Achei um lugar onde parecia que eu era um pouco popular (risos). E eu decidi ir atrás desse negócio e comecei … na época, a oficina Amácio Mazzaropi tinha uma série de cursos gratuitos.

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Como Percival, o pai rigoroso e conservador de Lado a Lado

BnR: Então com 14 anos você entrou de cabeça mesmo?
Rui: Entrei de cabeça. Falei “esse aqui é o meu lugar, vou fazer isso”. Eu queria ser jogador de futebol. Cheguei a fazer uma peneira no Palmeiras, nem peguei na bola (risos), e teve um tempo que num dia eu jogava futebol e no outro fazia teatro. Nessa época eu achei meu primeiro livro, tinha uns 11 anos. A professora pediu pra gente ler A Turma da Rua 15, do Marçal Aquino, que eu não li, mas fiz a prova e passei chutando.

BnR: Assim começou sua vida literária, sem ler?
Rui: É. Eu tô contando essa historia porque o teatro me deu uma volta, um giro completo. A partir do teatro, ou eu ia, ou tava ferrado. Ou eu vinha pra São Paulo… Sabe, o teatro melhorou um pouco, mas sempre foi meio elitizado. Que menino viria sábado pra São Paulo estudar o dia inteiro na PUC? Então, eu era meia-esquerda do GRB, e do dia pra noite me vi enfiado num curso de teatro. Eu, muito preconceituoso, me lembro que um professor, que hoje é meu amigo, o Paulinho Fabiano, um dia, na sala de aula, ele me cumprimenta e vem me dar uma beijo do rosto e eu (grunhidos)… “sai pra lá”. Eu nos meus 14 anos… mas é o giro, né? E resumindo, voltando ao primeiro livro não lido, hoje eu não consigo ler um terço dos livros que gostaria de ler. Mas ali foi uma passagem drástica, uma ruptura de comportamento.

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BnR: Mas e ai, como a coisa avançou?
Rui: Bom, eu comecei a estudar, mas não tinha dinheiro. Meu pai, ele é muito simples, uma figura do interior, ele achava que o moleque tem que ter uma profissão, e ia me colocando nuns cursos de aprendiz. Um amigo dele tinha uma oficina, uma serralheria, e ele me botava lá, de ajudante. Aí, tinha uma funilaria… eu me lembro, do Luís, ali no São Jorge, meu pai me botou com 12 anos pra trabalhar lá. Isso é legal, porque anos depois eu levei meu carro para ele arrumar. Meu pai queria que eu tivesse uma profissão. Mas eu não tinha grana para vir pra São Paulo fazer teatro, então ele me dava uma grana para eu pagar a passagem, comer uns hot dogs. Eu não conseguia pagar, então eu só fazia oficina de teatro de graça. Mas aos 15 eu fui trabalhar de office boy numa corretora de seguros e aí eu entrei no Tuca, onde tem o curso livre da PUC. Eu ganhava o salário mínimo e ele ia inteiro pra eu pagar o curso, que durava dois anos. Eu nem terminei, fiquei devendo umas parcelas. Mas aí, aos 18, eu já era um ator formado. Vê só, foi rápido, aos 19 já estava fazendo minha primeira peça.

BnR: E quando foi que ser ator virou sua profissão, que você começou a viver dela?
Rui: Tem um período que eu começo a viver só de teatro, mas não só como ator. Eu começo a dar aula de teatro em 2002, aos 24 anos, que é quando o Cello me convida para dar aula na Secretaria de Cultura de Barueri. Ali eu comecei a viver só do teatro.

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No papel de Lula, o salto na carreira

BnR: Ou seja, quando você volta para Barueri.
Rui: Sim. Eu levei uma peça que fazia aqui em São Paulo para Barueri, o Cello foi assistir. A gente não se via fazia uns oito ou nove anos. Ele olhou para mim e disse “como você cresceu” (risos). E ele me disse que estavam precisando de professores e me convidou. Eu fui, porque eu ficava mudando de trabalho, trabalhei no Bradesco, numa corretora de seguros, numa clínica veterinária. E foi fundamental eu trabalhar em Barueri. Eu aprendi muito de teatro nas oficinas, comecei a entender o que é, ali eu comecei a assistir as pessoas, experimentar muito, aprendi muito a parte técnica. Ali, sim, eu passei a viver só de teatro.

BnR: Nesta época você participou do projeto Noite da Taverna?
Rui: Sim. Noite na Taverna foi um dos movimentos culturais mais importantes que aconteceu em Barueri. O título já é uma referência ao livro de Álvares de Azevedo, um boêmio que morreu com 20 anos e deixou uma vasta obra, uma peça de teatro inacabada, Macário, e o Noite na Taverna (livro) que é exatamente um encontro de artistas, cantores, amigos pra contarem os seus amores, paixões, lerem suas poesias e cantarem suas músicas. E era exatamente isso que a gente… tentava (sorri) fazer no nosso Noite na Taverna. No início cada um queria falar sua poesia, cantar sua música… mas foi ficando muito grande e quando a gente percebeu era uma coisa enorme. Foi um movimento de onde surgem muitos poetas, muitas poesias, porque as pessoas iam pra lá ou levavam suas canções, seu violão, sua música, ou compunham na hora. Pra mim foi importante porque eu pude experimentar muitas coisas que eu gostaria de fazer profissionalmente. E, ali, eu tinha um espaço para experimentação. Era sempre no último sábado do mês.

BnR: E como tudo começou?

Rui: No inicio, quem pensa o Noite na Taverna são o César Mello, um artista de Barueri, um ator, um grande ator, que hoje faz grandes musicais e trabalha em novelas, um grande escritor. O Marcelo Arruda, que é um baterista e uma figura muito importante para a vida cultural de Barueri. O Valter Klenk, que é outra figura muito importante, que também foi muito influente na cultura e na vida de outras tantas pessoas, culturalmente. O Aluísio Reis, que toca violão, compõe, escreve… e eu. Em paralelo, outras figuras, como Marcello Airoldi, que é um ator importante nacionalmente, um figura importante em Barueri, que foi professor da maioria desses todos, inclusive meu professor. O Paulo Américo que, se não esteve o tempo todo, passou muito por lá. O André do Valle e tantas outras pessoas, eu poderia citar muitos nomes. Enfim, o Noite na Taverna durou dois anos e terminou porque cada um precisava, de fato,  seguir a sua vida, tocar sua carreira, cada um teve que repensar e começou a dispersar… foi um momento muito doloroso pra todos nós porque a gente não queria parar mas, enfim tem uma hora que as coisas têm que seguir. Foi um momento muito importante para minha carreira como artista.

BnR: Bom, e quando você passa a viver de ser ator?
Rui: Como ator, lógico, é com o filme do Lula. Depois que eu fiz o filme, tudo mudou, eu não consigo nem dar aula. Mas eu me sinto completo mesmo é dirigindo. Eu tô dirigindo a peça que a Fani faz (Fani Feldman, mulher dele)… e aquela coisa de olhar pro ator me fascina.

BnR: Em 2008 você foi fazer o Lula. Como foi isso?
Rui: Eu era de uma agência de atores, tinha feito uma série da Fox, já era meio conhecido no meio, e as donas da agência sempre tentavam me colocar em algum filme. Aí, no filme do Lula, eu fiz um teste pra outro personagem e elas me ligaram dizendo que não tinha rolado, que escolheram outro ator. Mas elas insistiram e me levaram pra fazer um teste de outro papel, de uma cena só, um enfermeiro que recebe o Lula no hospital quando a mulher dele morre. Esse papel acabou cortado do filme. O Fábio Barreto (produtor) me contou que ele estava cansado, não queria fazer o teste e elas insistiram. Ele topou e no meio do teste pensou “esse cara é o Lula, ele pode fazer o Lula”. Porque com os outros atores que foram cogitados antes não deu certo, primeiro o João Miguel, depois o Wagner Moura e, por último, o Thai Lopes, que fariam muito bem, claro.

BnR: Por que não deu certo com os outros atores?
Rui: Bom, houve vários problemas, cada um tinha o seu, e tinha essa problemática da engorda, né. (risos)

BnR: Aí, o filme projetou você nacionalmente…
Rui: Não só nacionalmente…

BnR: E o que o filme deixou de bom e de ruim?
Rui: Cara, eu costumo dizer que o filme só me deixou coisa boa. Porque se você pegar tudo o que saiu na imprensa sobre o filme, você vai ver que ele levou bastante paulada, batem muito nele por vários motivos. Batem os de direita e batem os de esquerda. (risos). Todo mundo bate. Mas eu gosto muito do filme, acho que tem uma fotografia linda, é muito bem feito… então o filme deixou muita coisa boa, principalmente porque meu trabalho de interpretação é muito elogiado.

Como Zé Olímpio, o cangaceiro de Aos Ventos que Virão

BnR: Como é isso?
Rui: Ah, tem críticas que só por esse trabalho eu poderia me aposentar feliz… claro, tem a questão financeira. (risos). Tem críticas que eu poderia enquadrar de críticos respeitados. Algumas são de chorar. Fora as críticas internacionais, a da Variety, que é uma das revistas mais importantes de cinema do mundo, em Hollywood, é uma crítica brilhante, destrincha o trabalho do ator. Um cara de Los Angeles compara o meu trabalho ao trabalho do Peter O’Toole em Lawrece das Arábias. Ou seja, me trouxe muitas coisas boas. Já as coisas que poderiam ser ruins é que o Lula é muito boicotado e às vezes eu também sofro esse boicote.

BnR: Fazem uma associação do personagem com o ator…
Rui: Sim. Muita gente chega pra mim e diz assim: “Cara, eu vi o filme. Uau, que trabalho incrível, que interpretação, (muda a entonação) pena que é sobre o Lula”. Então, sempre tem um pouco disso. Esse eu acho que é o lado complicado. A gente vive um momento sério nesse sentido, um momento em que… fala-se muito no ódio, não sei o que é, mas há uma estranheza ao nosso redor. Eu não quero romper com os meus amigos porque o que cara acha isso e eu acho aquilo, eu quero a discussão, entendeu? E se eu não tiver argumento, eu vou buscar e se eu não tiver propriedade pra falar daquilo, eu quero aprender, se eu percebo que o outro tem argumentos, eu vou ouvir. Mas eu acho que é um momento caótico e do caos muita coisa boa surge, enfim, tô abstraindo…

BnR: Bom, aí sua carreira teve outro impulso. O que você fez depois do Lula?
Rui: Primeiro, o Lula é um grande filme, e sem isenção fiscal, sem dinheiro que provém de lei de audiovisual e nada. O Lula era uma produção milionária, eu tinha seis pessoas cuidando de mim, eu me sentia uma estrela (risos), mas depois disso eu entendi a realidade do cinema brasileiro. O Luis Carlos Barreto, o produtor, achava que ia ganhar muito dinheiro, mas não ganhou, porque não contava que quem vai ao cinema eram justamente aqueles 15% que na época eram contra o Lula. 

BnR: E depois?
Rui: Depois disso, eu fiz quatro ou cinco filmes, todos de baixo orçamento, artisticamente muito bons, como o De Menor, que ganhou todos os prêmios, o do festival do Rio, de Locarno (Suíça), no mundo inteiro, é um puta filme, mas é de baixo orçamento. É daqueles que quando estreia você tem que avisar todos os amigos porque vai ficar em cartaz só um fim de semana, porque não tem sala, não tem dinheiro pra bancar. 

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“O teatro é pra onde sempre volto”

BnR: Mas te ajudou na carreira…
Rui: Sim. Depois do Lula eu fiz Aos Ventos que Virão, onde eu faço um cangaceiro que sobrevive à matança de Angicos, do Lampião, e foge. Fiz a história do Gregório Bezerra, que foi um dos poucos opositores da ditadura torturado em praça pública, mas o filme teve uma série de problemas e não terminou. Eu fiz um que estreia esse ano, que é a história do Marechal Rondon, Rondon o Grande Chefe, em que eu faço o Rondon jovem e o Nelson Xavier faz o Rondon velho. Esse filme também resultou numa série que passou no Canal Brasil, como filme-documentário. Fiz A Floresta que se Move, que estreou no ano passado, inspirado no Macbeth de Shakespeare, e o De Menor, em que eu faço um promotor de Justiça.

BnR: Fez TV também.
Rui: Sim, fiz a novela Lado a Lado, na Globo, e também uma série que estreia este ano que se chama Supermax.

BnR: Como você foi parar na TV?
Rui: Depois que eu fiz o Lula, teve uma alavancada de convites, porque, sendo pouco modesto, o trabalho que eu fiz no Lula é um trabalho bacana, bem feito. Os méritos não são só meus, são do diretor, eu tive uma equipe que me ajudou muito, eu tive uma preparação ótima, fiquei dois meses me preparando, engordando, crescendo barba. Eu assisti umas 40 horas de documentários e discursos do Lula. Eu não aguentava mais ver o Lula (risos). Ver o cara falando, se mexendo, os gestos, punha a mão aqui, fumava assim… eu tive toda uma estrutura que me permitiu fazer um trabalho muito bom e aí, a partir daí, eu comecei a receber uma série de convites.

BnR: Qual é sua praia, cinema, teatro ou TV?
Rui: O teatro é um vício, você acha a coisa mais genial do mundo, não existe nada igual. O cinema é mais artesanal, tem a coisa da preparação, você pode trabalhar mais tempo. Uma cena com duas ou três falas, um mês antes eu já sei. A televisão tem uma coisa meio instantânea, uma rapidez, uma velocidade, que o teatro e o cinema não têm. Você pega o texto e grava no dia seguinte. Então exige uma prontidão grande do ator. Você tem que estar sempre preparado, o texto chega na hora, às vezes o texto muda de repente e não é fácil.

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BnR: Você gosta de fazer os três?
Rui: Gosto, mas eu acho que o teatro é o lugar onde eu tô tentando criar uma perspectiva como artista, onde eu consigo dar continuidade. Eu faço um espetáculo e depois eu consigo dar continuidade, me aprofundo mais naquilo que eu comecei a pesquisar anteriormente. O teatro é o lugar para onde eu volto. Eu não vivo de cinema ou televisão, eu vivo de teatro, de voltar para esse lugar.

BnR: Mas tem uma diferença financeira entre fazer teatro antes e depois de ter feito o Lula?
Rui: Tem. No melhor sentido da palavra, eu nunca vou me livrar do fato de ter feito o Lula. Eu já tive a minha crise com isso como artista. Eu já fiz cinco filmes artisticamente muito mais premiados que o Lula. De Menor é um filme premiadíssimo, ganhou prêmio em tudo quanto é lugar do mundo, mas toda vez que algum crítico vai escrever sobre meu trabalho, mesmo no teatro, ele diz “Rui Ricardo Dias, o ator que interpretou o ex-presidente Lula…”

BnR: Mas isso não é para dar uma referência para o público? “Sabe esse ator aqui, se você não está lembrando dele, é o ator que fez o Lula no cinema.”
Rui: É uma referência e você tem que aprender a conviver com isso. Teve uma fase que isso me incomodava, mas não pelo Lula, me incomodava porque era o quarto filme que eu estava fazendo e o cara repetia aquilo. Mas não me incomodo mais, é isso, é assim que é.

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No premiado De Menor, como um promotor de Justiça

BnR: O Anselmo Duarte fez mil filmes mas sempre foi o cara do Pagador de Promessas...
Rui: Sim, o Wagner Moura, até hoje chamam ele de Capitão Nascimento. Para o grande público ele é o Capitão Nascimento. Faz parte.

BnR: O seu nome tem mais peso hoje, no teatro, é mais atrativo, depois do Lula?
Rui: Meu nome tem um atrativo para a produção da peça. Na peça O Anjo de Pedra, do Tennessee Williams (considerado um dos maiores dramaturgos americanos), eu nem era o protagonista, mas dizer que eu estava no elenco ajudou a atrair patrocinadores, meu nome aparecia em tudo. É óbvio que ajuda a produção. Mas o que ajuda mesmo no teatro é a televisão. Para o grande público, a novela que eu fiz é mais importante porque dá mais projeção. O ator tá na sua casa.

BnR: E 2016?
Rui: Eu volto a dirigir uma peça, que eu tô bem empolgado. A Companhia do Sopro, da qual eu sou fundador e faço parte, está trabalhando muito em cima da literatura. Tem um espetáculo a partir de A Hora e a Vez de Augusto Matraga (conto de Guimarães Rosa), que é um solo, que eu vou estrear este ano, e uma peça que eu tô dirigindo, Todos os Atos Humanos, que é um texto construído a partir da obra da Marina Colassanti, de um escritor italiano que se chama Giorgio Manganelli, e de um escritor surrealista brasileiro, o Nelson Coelho. Tem a série Supermax, sem data ainda definida, mas este ano, e o filme do Rondon.

BnR: É um ano cheio de novidades.
Rui: Sim, e tenho muita fé na série Supermax, da Globo, que vai passar na TV aberta e é muito diferente do que a Globo costuma fazer, é bem legal, bem maneira.

BnR: E a sua relação com Barueri.
Rui: Minha família toda mora lá, tios, irmãos, sobrinhos.Vou sempre pra lá, passeio com meus sobrinhos. A minha relação é com minha família, com meus amigos.

BnR: Você não fez mais nenhum trabalho lá?
Rui: Os amigos que eu tenho lá de vez em quando me chamam para algumas coisas. A última vez foi para ler um texto naquela campanha pra leitura (Dia de Ler. Todo Dia, da Secretaria da Cultura), ano retrasado. Sempre que me chamam e dependendo de quem chama, da minha relação afetiva, eu vou. Tem algo que me impede que é o tempo. Mas eu não quero fazer algo que possa ajudar politicamente alguma coisa que eu não compartilho.

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