terça-feira, junho 28, 2022
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Das ruas direto para os pódios do judô e do jiu-jítsu

por: Redação

Hoje ele é o sensei João Garcia, campeão sul-americano de jiu-jítsu. Antes era flanelinha nas ruas de Barueri e foi para o esporte por um motivo: o lanche dado na academia

Sensei João Garcia - crédito Valdir Galindo 2
Sensei João Garcia coleciona títulos no judô e no jiu-jítsu/Foto: Valdir Galindo

Quem vê o homem dentro do quimono, com tantas medalhas no peito – fruto de tantas vitórias em competições de artes marciais – dificilmente reconheceria o menino que, nas ruas de Barueri, tentava ganhar a vida guardando veículos como flanelinha. “Eu pedia moedas pra cuidar dos carros estacionados em frente à prefeitura, e se não davam, o carro aparecia riscado. E eles sabiam que era eu”, lembra João Garcia, hoje sensei e diretor de Lutas no Grêmio Recreativo Barueri.

A vida do garoto mudou subitamente de rumo durante uma confusão. Um dia, funcionários da Secretaria de Esportes o pegaram brigando no estacionamento, e o convidaram para as aulas de judô das escolinhas de esportes da prefeitura para sair das ruas. Foi convencido porque ganhou um quimono e o mais importante, o lanche oferecido para os alunos. “Eu ia de manhã, comia os três lanches, e voltava à tarde também por causa dos lanches. Um dia, umas duas semanas depois, o professor me deu um ultimato para participar das aulas em vez de só assistir. Foi assim que tudo começou”, recorda Garcia.

João Garcia no Pan Americano 2015: mais um título de campeão/Foto: Valdir Galindo
João Garcia no Pan Americano 2015 de jiu-jítsu: mais um título de campeão/Foto: Valdir Galindo

Em poucos anos, tornou-se um bom judoca, mas ainda era possível perceber características herdadas das ruas, como a malandragem, que ficava evidente quando, ao derrubar adversários, os provocava demais. “Eu era muito folgado, marrento, arrogante, não tinha ética”, admite. Só caiu a ficha de que o judô (e o esporte) era muito mais do que aquilo quando seu instrutor o designou como assistente. “Ouvi do meu sensei: ‘você vai ensinar aquelas crianças’. E quando você passa a ensinar crianças, seu mundo muda! Os sonhos que elas têm, suas perspectivas. Eram diferentes entre si, umas mais pobres, outras menos, mas todas se encontravam no esporte, eram iguais no esporte. E para ensinar, tive que estudar, muito”, explica o sensei.

Disposto a seguir o caminho do esporte, ele prestou concurso público na prefeitura e foi efetivado como professor de judô. E na medida em que avançava nas graduações do esporte, buscava sempre testar seu estágio de evolução. “A natureza do esporte é a competição, enriquece o ser humano. Competindo com atletas melhores, poderia saber o quanto eu estava bem. E vi que vencer só depende das sementes que você plantou, é um compromisso com você mesmo”, afirma o campeão brasileiro de judô e tetracampeão paulista (entre tantos outros títulos regionais), sensei João Garcia.

Sem limites

As lesões típicas da modalidade – mais os anos que se passaram – não permitiam mais ao sensei participar em alto nível das competições. Um médico indicou a prática de um esporte “menos estressante”, e Garcia encontrou no jiu-jítsu esta alternativa. Começou a convite de um colega seu, Demerval Naja Jr., apenas para ensinar as técnicas de queda do judô aos alunos de jiu-jítsu. O instrutor acabou convidando Garcia para também aprender o esporte. “Com o tempo de prática, eu era quem me negava a avançar as graduações no jiu-jítsu, não era o professor. Aliás, foi ele que me pressionou, no bom sentido, para continuar; Seis anos depois, veio a primeira graduação”, conta.

Pódio do Campeonato Sulamericano de jiu jitsu 2016/Foto: Divulgação
Pódio do Campeonato Sulamericano de jiu-jítsu 2016/Foto: Divulgação

Com essa nova conquista, a busca pelo aperfeiçoamento e a veia competitiva renasceram. “No início, foi horrível!… Eu era muito cru, trouxe muitos vícios do judô. Mas vi pelo lado bom, isso cada vez mais me motivava a vencer, e me vencer”, diz. O agora lutador de jiu-jítsu João Garcia insistiu, e acabou como campeão paulista, brasileiro e pan-americano em 2015, na categoria absoluto (em que não há limites de peso), pela Confederação Brasileira de Jiu-Jítsu Esportivo. 

A grande coroação de tantos anos de trabalho veio em abril deste ano – nos dias 9 e 10 –, quando, sempre em busca de vitórias, João Garcia, aos 32 anos, deu um show de técnica, perícia e garra, ao conquistar o título de campeão sul-americano de jiu-jítsu pela CBJJE. O evento foi no ginásio Mauro Pinheiro, no Ibirapuera, em São Paulo, e o feito lhe deu o direito de disputar o Campeonato Mundial de Jiu-Jítsu, de 14 a 17 de julho, no mesmo local.

Premio
O sensei recebe a Medalha de Mérito Esportivo do Jiu-Jítsu 2014/Foto: Divulgação

Ao falar sobre sua trajetória, o sensei conta que um filme passa na sua cabeça. “Não fosse o esporte, a marginalidade tinha vencido, porque a ‘oportunidade’ de quem está nas ruas é sedutora. Posso dizer que venci a rua, e com as competições venci a mim mesmo. Sou fruto das escolas de esporte de Barueri”, ressalta João Garcia.

Em 2014, ele foi agraciado com a Medalha de Mérito Esportivo pela Federação Paulista de Jiu-Jítsu por valorosa contribuição ao desenvolvimento da modalidade. 

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