sábado, agosto 13, 2022
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As damas protetoras dos vira-latas de Barueri

por: Redação

Sueli e Mara decidiram dedicar a vida a cuidar dos cachorros de rua da cidade. Todos os dias elas alimentam e tratam de mais de 50 animais abandonados

Por Décio Trujilo

 

São quase nove da manhã e uma cena incomum se repete na Chácaras Marco: os cachorros de rua do bairro começam a aparecer do nada e se juntar diante de um portão de garagem. Eles sabem que daqui a pouco a porta vai se abrir e de dentro sairá uma mulher, Mara, para alimentá-los.

No mesmo horário, outra mulher, Sueli, começa a percorrer um trecho de três quilômetros puxando um carrinho de feira com comida, água e remédios para atender os cães que perambulam pelo Jardim Belval. As duas decidiram dedicar suas vidas aos animais abandonados e não falham um dia na missão que escolheram, chova ou faça sol, dia útil, domingo ou feriado. “Os bichinhos têm fome todo dia”, lembra Mara. “Eles não têm calendário”, brinca Sueli.

Maria Sueli da Silva é funcionária do Estado e trabalha na EE José Wilson Padinha, no Jardim Belval. Sua rotina é sair de casa, na Vila Nova, todo dia, às 9 horas, com o carrinho de feira, e visitar quatro ou cinco pontos onde vivem grupos de cachorros de rua dos dois bairros. Quatro ou cinco porque às vezes dois grupos se juntam e viram um só. “Minha vida é para eles, o que ganho, gasto com eles”, explica.

Mara Correia faz carretos com um pequeno caminhão. Tem 15 cães no quintal de casa, na Chácaras Marco, todos recolhidos na rua. Além deles, mais cinco vivem nas vizinhanças e vão visitá-la todas as manhãs, na hora da comida matinal.

Depois de alimentá-los, ela sai para outros dois locais do bairro, próximos aos muitos galpões que há por ali, para tratar dos amigos da rua. “É muito gratificante ver que um cachorro que estava mal quando apareceu, agora está bem e saudável”, conta ela.

Grupo de “amigos” de Sueli no Belval: ela faz trajeto todo dia para dar comida e água aos cães de rua

Tanto uma quanto outra são ansiosamente esperadas pelos bichos, que se agrupam e ficam aguardando a visita. A chegada delas é recebida com festa, como faz qualquer cachorro quando vê o dono. A diferença é que são muitos de uma só vez. Às vezes, até dez. “O cachorro percebe quem gosta dele”, garante Sueli.

Água, comida, remédio e carinho

Enquanto os animais comem e bebem, elas fazem inspeções de saúde completas em cada um. Acham uma bicheira, um machucado de agressão de humanos ou de briga, problemas de pele, sinais de verminose. E dá-lhe remédios e curativos, usando truques para fazer os amigos engolirem os comprimidos ou esperar quietos o tratamento de uma ferida. As duas conhecem a personalidade de cada um. Essa pequenininha é a líder do grupo, aquele é carente, essa é tímida, o outro, brigão.

Quase todos são muito carentes. Por isso, não basta o conforto material. Junto tem de ir abraço, cafuné, aperto, conversa feito adulto com bebê. Isso explica porque mesmo de barriga cheia, Romeu e Julieta não deixaram de atravessar a rua correndo e saltar sobre Sueli quando a viram. Ali, ela soube por uma comerciante que o casal ia ser desfeito. Romeu está sendo adotado e vai passar a viver num sítio. Cada um tem nome que elas mesmo deram.

O resultado do cuidado dá para perceber na primeira olhada. Os cães que já são protegidos por Sueli e Mara há algum tempo não parecem viver na rua. São saudáveis, bem nutridos, fortes, tem o pelo bom. Para quem não sabe, passam facilmente por animais que têm dono. Os que foram encontrados faz pouco tempo ainda têm as marcas de maus tratos e abandonos. “Muitos foram rejeitados, jogados na rua sem ter malícia para viver sozinhos”, explica Mara. “Tem pessoas que adotam algum cachorro que a gente oferece e logo devolvem”, diz Sueli. “Outro dia mesmo, uma família pegou na sexta-feira e devolveu na segunda.”

Elas começaram na vida de protetoras de cães de rua de uma maneira meio parecida, quando decidiram socorrer um bichinho em apuros. Pegaram gosto, logo ajudaram um segundo e não pararam mais. Mara, há quase 20 anos, Sueli, há mais de dez. Até que cinco anos atrás foram apresentadas uma à outra pela mesma paixão e, desde então, passaram a atuar juntas.

Além de alimentar diariamente os amigos conhecidos, que atualmente são mais de 50, Sueli e Mara são procuradas para recolher animais em situação de risco extremo, como fêmeas com recém-nascidos, ninhadas sem a mãe e animais feridos.

“Tem muito atropelamento, cães que as pessoas acham que devem ser sacrificados mas que a gente pega, trata e salva”, diz Mara. “Outro dia resgatamos uma cadelinha num lixão que estava com uma perna dilacerada, já em estado de putrefação”, conta Sueli. “Diziam que era questão de tempo para morrer, mas hoje está saudável.”

Falta de recursos

Elas também atuam no controle de natalidade. Com ajuda de um veterinário da cidade, que cobra preço de custo, e apoio de prefeituras da região, conseguem cerca de 20 castrações por mês, inclusive de animais que têm dono.

“Infelizmente, Barueri não tem esse serviço, o que é muito ruim, porque além de ser uma questão de compaixão, também é um problema de saúde pública, porque eles se multiplicam muito rapidamente e, sem cuidados, podem tornar-se portadores de doenças”, diz Sueli.

Elas fazem as contas. Uma única fêmea pode ter até 30 filhotes num ano. E esses filhotes vão se reproduzir também. O trabalho não é fácil. A começar pelos custos. Só de ração, Mara gasta R$ 720 por mês. Sueli investe R$ 360. Mas como muitos cães foram acostumados com comida, ela prepara arroz com fígado ou frango, que consomem mais pelo menos R$ 100.

Além disso, há o custo das castrações, tratamentos e remédios, alguns bem caros. São produtos para curativos, sarna, anti-pulgas, contra vermes e mata-bicheiras. As pessoas ajudam. No Belval, um lava-rápido fornece água para Sueli; na Chácara Marco, funcionários de uma empresa ajudam Mara com ração. “Recebemos algumas doações, mas é bem pouco”, diz Sueli.

O sonho da ONG

Hoje, elas estão finalizando o processo de criação de uma ONG, a Suelimara. O sonho é ter uma área para abrigar os animais provisoriamente, enquanto são tratados e até conseguirem adoção. Tiveram trabalho voluntário e gratuito de advogado e contador para constituir a ONG, mas falta dinheiro para os próximos passos.

As duas são reconhecidas e admiradas tanto nos bairros onde fazem o trabalho quanto pelos amantes dos animais. Este ano, por exemplo, Sueli foi homenageada pela escola de samba Mocidade Marihá, do Jardim Belval, que tinha um enredo sobre pessoas que fazem o bem. Na escola onde trabalha, o Padinha, também recebe solidariedade da diretora. Mas falta apoio concreto. 

Por enquanto, o principal instrumento que elas têm é o Facebook, onde expõem os cães resgatados à espera de adoção, recebem avisos de animais necessitados e denúncias de maus tratos e tiram dúvidas das pessoas.

Quem quiser ajudar Mara e Sueli pode contatá-las pelo Facebook (Sueli da Silva Silva). Para fazer doação em dinheiro, os dados são: Maria Sueli da Silva, banco Santander, agência 0341, conta 05-003496-1.

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