“A” CRÔNICA!!!

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Filho chegando, texto da Nana, um ano de Barueri na Rede, o futuro. André do Valle fala de expectativas e interação com a realidade

André do Valle, cidadão barueriense, é ator e roteirista. Como teatro-educador, consegue comunicar-se ao mesmo tempo com crianças, adolescentes e adultos – o que lhe dá a capacidade de tratar com leveza e bom humor os assuntos mais difíceis, complexos e polêmicos.
André do Valle, cidadão barueriense, é ator e roteirista. Como teatro-educador, consegue comunicar-se ao mesmo tempo com crianças, adolescentes e adultos – o que lhe dá a capacidade de tratar com leveza e bom humor os assuntos mais difíceis, complexos e polêmicos.

O Barueri na Rede faz um ano este mês e esta aqui também é a minha última crônica antes de o meu primeiro filho nascer. “Tem que ser A CRÔNICA!!!”, pensei. Então, li o último texto da Nana, onde ela afirma ser uma vaca, e me dei conta de que estamos evoluindo a passos muito largos por aqui.

Semana passada fui a Brasília pela primeira vez, acompanhado por uma atriz com quem me apresentei. Nós nos conhecemos domingo e em poucas horas já éramos amigos de infância! Mandei-lhe um áudio contando sobre as minhas expectativas pra esse texto e lhe disse, em tom de desabafo, como estava sofrendo por não conseguir pensar em nada de extraordinário.

– Para de criar expectativa!! Não tem que ser “A” CRÔNICA! Vai ser a crônica desse momento. Faz o seguinte, fica o mais nu agora que você puder e se concentra no que tá saltando pra você, e é sobre isso que você vai falar. E foda-se se não parece bom o suficiente, porquê… meu, se cê ficar achando que cê tem que escrever “A” CRÔNICA, cê vai fazer um negócio de merda!

Bom, assim que aterrissei de novo na minha consciência, percebi que rolou algum extravio de bagagens… A minha amiga, ao arrancar-me de onde eu estava com o seu áudio de 33 segundos (sem qualquer alusão à idade de Cristo por causa do Natal que já vem), levou de mim uma baita mala sem alças e cheia de expectativas e deu-me em troca a bagagem que eu precisava pra escrever este texto.

Você já abriu o congelador, viu um pote, salivou ao pensar em qual seria o sabor do sorvete e quando abriu…! Era comida congelada? Já frequentou ou deixou de frequentar lugares pra corresponder às expectativas de alguém? Já perdeu anos e anos da sua vida estudando coisas que não te agradam, em nome das expectativas do mercado?

– Ah, Dé, eu queria muito morar sozinha quando fosse adulta, mas a minha mãe disse que sem casar eu não saio de casa! – Contou-me certa vez uma aluna de 16 anos. Viu só? Expectativas ao desserviço da vida!!!

Pandora, a primeira mortal segundo a Mitologia Grega, famosa por ter aberto a caixa que libertou todos os males que até hoje nos assolam, conseguiu fechá-la antes que o último deles escapasse. E o mal não era outro senão aquele que sempre tivemos guardado em nós: a Esperança.

Segundo Espinosa, um dos top 3 do pensamento humano, esperança é nada mais do que a EXPECTATIVA de alguma alegria vindoura. Pode ser muito boa, claro, quando usada com sabedoria. Mas você há de convir comigo que sabedoria por aqui anda meio… escassa. E olha só, ao desejar um texto formidável só porque seria o último do ano, o último antes de ser pai e o primeiro após a belíssima crônica da Nana, eu criei expectativas que não correspondiam à minha realidade. Correspondiam, sim, a uma idealização. No fundo, eu tinha caído no mesmo conto do Ano Novo; que é quando renasce um monte de expectativas, em geral impossíveis, apenas por um fechamento de ciclo dum calendário.

E isso na melhor das hipóteses, porque na outra, a minha expectativa por um texto magnífico brotou de um sentimento de competitividade com a Nana. Sentimento esse que me deixou bem diminuído, porque a Nana é uma das últimas pessoas com quem se precisaria competir, de tão companheira e generosa que é, e também porque toda a galera do Barueri na Rede tá junta; torcendo e vibrando a cada conquista do nosso jornal!

Eu não vou entrar aqui nas causas desse afã por competir, porque pretendo terminar o texto antes que a minha própria vida se vá pelos muitos anos vividos. Mas posso falar da idealização do futuro.

Futuro é o lugar mais fácil do mundo… O passado você não muda e o presente às vezes pesa! … Mas no futuro cê começa dietas, projetos, faz exercícios físicos… E tudo isso porque o futuro tá na ideia e a ideia não carrega os quilos do corpo. Pensa num dia de sol na praia; você se vê nadando, bebendo cerveja, pegando um bronze na esteira… Mas o gelo da água nas costelas, o ardido na pele, a areia que entra nos olhos ou que não sai de entre os dedos dos pés nem do chinelo… Isso tudo, você só sente lá. E mesmo pra ser pai, por exemplo, qualquer, qualquer expectativa que eu crie em torno do meu filho será frustrada! E isso vale para a Humanidade inteira!!!

Mas, calma, nem tudo está perdido. Em vez de ficarmos criando expectativas idealizadas, por que não aprendermos a interagir com o mundo? De querermos isso e aquilo para os nossos filhos, por que não nos perguntarmos o que será que os nossos filhos vão querer pra eles?! De fantasiarmos os nossos encontros, por que não nos encontrarmos de peito aberto? De lidarmos com a nossa ideia de como as coisas deveriam ser, por que não assumi-las como são, pra, aí sim, pensarmos no que fazer com elas? Por que não abrirmos a Caixa de Pandora e libertarmos de vez a esperança, pra que em seu lugar nos brote apenas a curiosidade?

Talvez eu tenha escrito uma boa crônica. E, francamente, após pensar em tudo isso, já não tem a menor importância pra mim se foi a última do ano ou antes de eu ser pai, se foi publicada em seguida ao texto da Nana… A única coisa que importa agora pra mim é que eu venci essas baixezas das quais falei! E venci, porque fui capaz de assumi-las! E as assumi, porque sei me ver de fora! E me vejo de fora, umas vezes porque o Teatro ensinou-me o distanciamento e outras, porque tenho amigas e amigos tão habilidosos, que são capazes de atacar todos os meus vícios ruins, sem me causarem sequer o menor arranhão!