Chacina de Osasco: Principal testemunha de acusação diz ter mentido

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Segundo reportagem do R7, em carta, testemunha afirma ter sido coagida pela polícia e Promotoria

GCM foi condenado com mais dois PMs pela morte de 17 pessoas/Fotos: Divulgação
GCM (de camisa branca) foi condenado com mais dois PMs, pela morte de 17 pessoas/Fotos: Divulgação

Pouco mais de um mês depois do julgamento que condenou dois policiais militares e o GCM de Barueri, Sérgio Manhanhã a mais de 100 anos de prisão, uma reviravolta pode comprometer todo o processo do que ficou conhecido como a Chacina de Osasco.

Carta da testemunha
Carta da testemunha

Na tarde desta quarta-feira, 1/11, o portal de notícias R7 divulgou a informação de que a principal testemunha da acusação teria admitido em carta que foi coagida pelas autoridades a mentir. Protegida no processo sob o pseudônimo de Gama, e considerada peça-chave da acusação, a testemunha, segundo o portal, afirma, em texto endereçado à Corregedoria da PM, que mentiu no depoimento à Polícia Civil e diz que foi ameaçada pelo delegado e pelo promotor do caso para que levasse as acusações adiante.

O prêmio de R$ 50 mil, oferecido pelo governo para quem desse informações que ajudassem na resolução dos crimes, teria sido outro fator que levou ao falso testemunho. Em depoimento à polícia, ela teria relacionado diretamente um dos PMs aos assassinatos. Mesmo não tendo sido ouvida durante o júri popular, essa nova afirmação da testemunha compromete todo o processo.

Ouvido pelo Barueri na Rede, Abelardo Rocha, advogado de defesa do GCM Sérgio Manhanhã, que desde o começo foi contundente sobre a inocência do cliente, afirma que esse novo fator só reforça todas as irregularidades que ele apontou desde as investigações. “O processo, além das contaminações formais que já existem e são suficientes para torná-lo nulo, agora pode dar origem a um novo júri. Essa notícia acabou mostrando que o inconformismo da defesa tem precedentes e que a visão dos jurados estava absolutamente contaminada”, afirmou o advogado.

Na ocasião do julgamento que condenou Sérgio Manhanhã, Abelardo Rocha foi categórico ao afirmar que a decisão do júri foi totalmente emocional, e não baseada nas provas do processo. Segundo ele,  diversas falhas, tanto da investigação como de pontos apresentados pela promotoria, deixavam claro que o GCM não tinha nenhuma ligação com os homicídios.

Leia – MANHANHÃ: “Às 21h50 entrei com minha guarnição no Batalhão da GCM e lá permaneci até as 22h50”

Mesmo diante de falhas apontadas no processo, como a falta de laudo pericial no celular de Sérgio Manhanhã – que foi relacionado à chacina por uma troca de emojis (imagens) de whatsapp, o promotor do caso, Marcelo Oliveira, sempre afirmou ter provas suficientes para a condenação dos acusados, como na entrevista que deu ao BnR.

Segunda parte da carta da testemunha
Segunda parte da carta da testemunha

Mas na revelação de que teria mentido em depoimento, a testemunha afirma que teria sido coagida pelo delegado e pelo promotor. Em trecho da carta, segundo o R7, constaria quequando tentou recuar do depoimento, o delegado Andreas Schiffmann, do Setor de Homicídios de Carapicuíba, o levou ‘quase obrigado’ ao Fórum de Osasco para conversar com promotor Oliveira”.

Em outra parte da carta, a testemunha relata um outro episódio em que foi diretamente pressionada pelo promotor: “Se você não colaborar vou jogar [revelar] teu nome no plenário, aí não vai ser mais a polícia atrás de você para ajudar, e sim os amigos assassinos do Thiago [Henklain] [sic]”, teria dito o promotor.

Leia a Carta de testemunha, na íntegra

Durante o júri, em vários momentos, Marcelo Oliveira expôs a testemunha, que estava com a identidade mantida sob sigilo para a própria proteção e não quis comparecer ao julgamento por medo de represálias.

Anulação do julgamento

Diante das novas revelações sobre o depoimento da principal testemunha de acusação do caso, Abelardo Rocha, que entrou com apelação na mesma hora em que Sérgio Manhanhã teve a sentença revelada, diz que agora vai pedir a anulação do júri. “Esses fatos atentam contra a própria Justiça. Corremos o risco de ter aqui em São Paulo o maior precedente de uma decisão errada do Tribunal do Júri, à partir da influência do Ministério Público e da Polícia Civil sobre uma testemunha forjada que, com mentiras, incriminou um dos réus”, argumenta o defensor do GCM de Barueri que esta aguardando, preso, o resultado da apelação da condenação aos 100 anos de detenção.

 

 

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