sábado, maio 18, 2024
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Quando os gritos são em silêncio

por: Redação

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Rebeca não pediu ajuda, não gritou, não anunciou aos quatro ventos que gostaria que  alguém lhe desse a mão. Ninguém notou sua dor

Formado em Comunicação Social, Publicidade e Propaganda, baterista da banda Vozes Incômodas, autor dos livros "Poesia das Ruas" e "Anarquismo: Uma questão de ordem, respeito e solidariedade", escrivinhador no site Interferência Urbana, ataca de poeteiro e contador de causos no site "Recanto das Letras", reside em algum lugar além do arco-íris, não está na moda, não bebe, não fuma, não cheira, não dança, não joga e não namora em pé.
Jay Rocker é formado em Comunicação Social, Publicidade e Propaganda, baterista da banda Vozes Incômodas, autor dos livros “Poesia das Ruas” e “Anarquismo: Uma questão de ordem, respeito e solidariedade”, escrivinhador no site Interferência Urbana, ataca de poeteiro e contador de causos no site “Recanto das Letras”, reside em algum lugar além do arco-íris, não está na moda, não bebe, não fuma, não cheira, não dança, não joga e não namora em pé.

Reparamos apenas naquilo que queremos ver, mas nunca notamos quando algo está em nossa frente. Principalmente quando está tão próximo.

Alguns gritos são em silêncio, são demonstrados em pequenas ações e, mesmo assim, quem está perto não consegue ver.

Isso me lembra Rebeca, aquela moça sempre alegre, que em nenhum momento demonstrava fraqueza ou qualquer tipo de sentimento ruim.

As vezes ela chorava e ninguém via. As vezes seu olhar era vazio e ela ficava muda, mas ninguém via, afinal, ela não pediu ajuda, ela não gritou, ela não anunciou aos quatro ventos que gostaria que  alguém lhe desse a mão.

Sim, Rebeca andava triste, mesmo sorrindo, ela começou a ter um sorriso sem graça, mas se esforçava para mostrar um outro lado. Queria não perturbar seu namorado com essas coisas. “Frescura”, “coisa de quem quer atenção”, “tá carente?”, seriam as respostas. Não, não valia a pena.

A sua dor continuava. Era uma dor que não deixava marcas na pele. Não deixava marcas na carne. A navalha da dor era bem pior: Dilacerava sua alma, enchendo de hematomas que só ela podia ver, sentir e tentar curar.

As feridas profundas que ninguém era capaz de notar, cada vez mais eram tampadas com coroas de espinhos, mas para quem estava de fora (amigos, família, colegas de trabalho…) estava tudo bem. Era apenas a Rebeca, que estava sempre sorrindo.

– A Rebeca está mais ausente, percebeu? – Perguntou a moça no elevador.

– Ah, é frescura, coisa pra chamar a atenção. Todo mundo tem problemas, ela deve ter alguma coisa, mas se formos olhar o problema de todos, não faremos nada. – Respondeu a moça que estava empregada graças aos contatos de Rebeca.

E assim, passam-se os dias.

– Tá sumida, menina? – Pergunta aquela amiga de todas as horas, nos momentos em que ela estava financeiramente bem. Fazia tempo que Rebeca não lhe pagava algumas doses de uma bebida qualquer, não a levava em casa e nem comprava seus cigarros.

– Tô por ai – Uma Rebeca que se esforça para parecer educada e gentil, lembrando que alimentou porcos com pérolas por muito tempo.

A conversa acaba como a grande maioria delas: “Vamos marcar algo”, “A gente se tromba por ai”, “Qualquer dia a gente se fala” e nunca mais dá tempo.

Rebeca realmente sumiu. Trancou-se em seu mundo. Pouco falava com os amigos e amigas, que nem perceberam o quão distante ela estava ficando. Ela foi sumindo, se enterrando. Nada mais tinha graça. Como personagem de Garcia Marquez, estava sozinha com seu saco de ossos. Os amigos? Tivera muitos no decorrer da vida. Na sua época de ouro. E como disse alguém, “sabemos quantos amigos temos quando festejamos e quantos amigos de verdade temos quando adoecemos”. Rebeca estava doente.

Quando suas conversas com seu atual melhor amigo (que era pago para ouvi-la por uma hora e receitar alguns comprimidos) já não surtia nenhum efeito. Quando aquele coquetel colorido de bolinhas que não eram jujubas já não acalmava sua alma, ela ficava só. Já estava só de presença física, agora estava começando ser abandonada por ela mesma.

Namorados, amigos, família, ninguém entendia, mas eram PHDs em julgamento. Ninguém estava lá na hora que ela precisou.

E já passavam das 22:00, o condomínio não permite barulho após esse horário. Em seu apartamento ouve-se uma música em altura muito elevada. Sim, a louca está ouvindo Spiritual do Johnny Cash no modo repeat. Alguém reclama na portaria. Conseguem parar o som.

No dia seguinte, estão todos os amigos esperando a chegada de Rebeca. Alguns com pressa, outros por mera questão social e até para rever antigos amigos. Ela demora, mas chega linda. Bem arrumada em uma cama de álamo, com seu cobertor de rosas brancas. Todos aqueles que não dispunham de 20 minutos num dia, para um café ou uma cerveja com ela, estavam lá.

– Nossa, quem diria que ela faria uma coisa dessas. – Disse um.

– Tão cheia de vida. – Disse outro

– Nunca percebi. Disse a maioria.

Ninguém percebeu, pois não estavam lá. Ninguém percebeu, porque não olharam além do que os olhos podem ver. Ninguém percebeu porque ela nunca foi realmente especial para ninguém.

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