Marcello Airoldi e Barueri: uma história de amor

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Nada abala o caso de amor entre Marcello Airoldi e Barueri. O ator, que já correu o mundo e alcançou sucesso nacional no teatro, cinema e TV, está sempre em ação na cidade. Hoje, por exemplo, estuda a remontagem da peça Viúva, porém honesta, de Nelson Rodrigues, encenada por aqui há mais de 20 anos, ao mesmo tempo em que participa de um projeto com as bandas de rock dos anos 80 e 90.

Cello, como é conhecido pelos mais próximos, passou infância e adolescência no Silveira e trabalhou por anos nas Oficinas Culturais da prefeitura. Nessa entrevista exclusiva, ele conta sua história. Também fala um pouco de sua visão sobre a situação do país e deixa escapar que não descarta no futuro participar da política de Barueri.

Você sempre manteve seus vínculos com Barueri. Este ano, fez a leitura dramática da peça Viúva, porém honesta, de Nelson Rodrigues, que já havia encenado aqui há mais de 20 anos. Você pretende continuar com essa ligação? Tem projetos em mente para 2017?

Retomar o contato com esse grupo que encenou a peça há 24 anos, foi incrível. Na época, eram amigos e alunos, hoje, são apenas amigos se reencontrando para mostrar que antigas ideias e sonhos podem sempre estar vivos. Temos um grande interesse em continuar com esse projeto, mas provavelmente a leitura se transforme numa montagem teatral. Tudo depende do tempo que o elenco terá pra se encontrar, já que é formado por pessoas das mais diversas profissões e atividades.

E você tem outros projetos na área da cultura para pôr em prática na cidade para os próximos anos?

Além da possibilidade de continuar com o processo da Viúva, porém honesta, está em “banho Maria” a ideia de editar um livro com a história das bandas de Barueri. Eventualmente, temos nos reunido e queremos organizar, além do registro escrito, um show com as bandas que existiam nos anos de 1980 e 90 na cidade. Os encontros que fizemos geraram bons frutos. Os “velhinhos”, com todo o respeito, já estão se reunindo, fazendo jam sessions e produzindo músicas novas. Se continuar assim, o livro deve contar histórias antigas e novas.

Você é baterista, canta…

Fui baterista das bandas Penélope, Flor de Lótus e da formação embrionária do Folgatos. Cantei, mais tarde, na banda Corte de Viena, com repertório de músicas próprias e alguns covers. Sinto falta de estar em alguma banda, sempre ensaio recomeçar algum trabalho assim, mas falta tempo.

cello-em-peVocê tem essa relação forte com a cidade e ao mesmo tempo é um cara politicamente muito ativo. Já pensou em participar da vida política de Barueri?

Já pensei, sim. Quando eu dirigia o Departamento de Cultura (da Prefeitura), tínhamos um grupo muito atuante na cidade e uma das ideias era que eu fosse candidato a vereador. Desisti quando percebi que nosso trabalho, ligado ao Executivo, tinha uma ação muito ampla e atingia um número muito grande de pessoas. Não podia me desligar daquelas atividades na época.

Circularam durante a última campanha conversas de que você foi convidado a ser candidato a prefeito. É verdade?

Sim, é verdade. Ano passado muitas pessoas me questionaram sobre essa possibilidade. O que mais me chamou a atenção é que eram de diferentes áreas de atividade. Até pessoas que não faziam parte do meu convívio me sondaram.

E você não se animou?

Confesso que fiquei surpreso e feliz. Não imaginava que enxergavam em mim essa possibilidade. Sempre respeitei e me dediquei ao trabalho na área da cultura, que é muito ampla. Isso deve ter refletido na opinião de muita gente. De qualquer forma, não é uma decisão apenas pessoal, implica na representação de muitos, numa ação que envolve muitas ideias e forças. Mas não está fora de questão.

E desde quando vem sua ligação com Barueri?

Meu pai chegou da Itália em 62. Conheceu minha mãe em Presidente Altino, Osasco. Logo se casaram e mudaram pra Barueri, para o Jardim Silveira. Eu nasci durante o primeiro ano da família na cidade. Aí, fiz creche na Nossa Senhora Mãe da Igreja, primário e ginásio na EEPG Alexandrino, fiz curso de datilografia na Kolping, com Dona Palmira, trabalhei de boy e auxiliar de escritório, nesse momento já estudava teatro em São Paulo, vendi ovos, toquei em algumas bandas da cidade, até me transformar no primeiro professor de teatro da prefeitura em 1990. Esse é o prólogo. (Risos)

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Essas aulas de teatro em São Paulo ainda não eram na EAD (Escola de Arte Dramática da USP), certo?

Eu fazia teatro ainda no Alexandrino. Quando tinha algum evento temático, eu fazia alguma peça com os amigos. Quando sai do ensino fundamental e fui trabalhar de boy, já comecei a fazer cursos em São Paulo. Quando entrei na EAD eu já dava aulas de teatro na prefeitura.

Quando e como foi a experiência na prefeitura? Que idade você tinha quando começou lá?

Eu entrei na prefeitura em 1989, aos 19 anos. O Semec (antiga Secretaria de Cultura do município) estava selecionando instrutores para a Escolinha de Artes. Um amigo, o jornalista Marcos Vicente, me avisou e fui até lá fazer uma entrevista e deixar meu currículo. Dei aulas até 94, quando fui para Londres estudar teatro. Em 97, voltei ao serviço público como diretor na então Assessoria de Cultura.

Onde você estudou em Londres? Como era sua vida lá?

Fiz muitas oficinas e cursos em Londres. Mímica, teatro físico, improvisação, história do teatro . Me lembro de duas escolas, Cit Lit e Birkbeck College. Morei lá um ano. Para pagar os cursos de inglês e teatro trabalhei como garçom, distribui revistas no metrô, fiz coxinhas para vender e toquei tamborim. A vida era dura, mas foi um aprendizado incrível. Londres é maravilhosa, vi espetáculos dos quais não me esqueço e os museus são impressionantes.

E na volta, o que aconteceu? Você com essa bagagem toda…

Logo que cheguei ao Brasil, voltei à EAD para concluir o curso, comecei a dirigir vídeos e a dar aulas particulares de teatro. Em 97, João Palma (secretário de Cultura na época e também do atual governo) me convidou pra trabalhar na equipe da Assessoria de Cultura.

Esse trabalho deu muitos frutos e revelou muita gente

Nessa época as ações do serviço público na área cultural eram poucas. Conseguimos fomentar a produção de arte, criar programas de incentivo à leitura, ter uma programação intensa no Teatro Municipal, que passou a ter uma frequência incrível, criamos o salão de artes plásticas, salão de aquarela, festival de vídeo, varal da cultura, desenvolvemos projetos com hip hop, rock, gospel, prêmio de literatura, enfim…não me lembro de todas as ações, mas foi um momento muito rico na cultura da cidade e, consequentemente, no bem estar de muita gente.

cello-capaQuanto tempo durou essa passagem pela secretaria de Cultura? Como ficou o ator Cello nesse momento? Produzia?

Fiquei até 2004 e durante esse período, além das atividades em Barueri, estreei muitos espetáculos em São Paulo. Parte dessas peças consegui levar ao Teatro Municipal de Barueri.

E ao mesmo tempo você já enveredava para a sua carreira de ator em São Paulo…

Sim. Sempre trabalhei com pessoas e grupos de teatro em São Paulo. Por exemplo, fiquei muitos anos no Teatro Ventoforte. Cheguei a escrever e dirigir uma montagem sobre Kaspar Hauser lá. Ilo Krugli, diretor do grupo, é um dos nomes mais importantes do teatro do Brasil. Bodas de Sangue ganhou dois prêmios Shell, de música e cenario, e fizemos turnê pela Holanda, Itália e Bélgica em 2006. Essa era apenas uma das inúmeras peças de repertório do Ventoforte. Logo depois montei o projeto Teatro de Perto, que começou com duas peças solo, Café com Torradas, de Gero Camilo e Um segundo e meio, texto que escrevi. Os dois espetáculos fizeram temporada em São Paulo e viajaram por muitas cidades do país, quando ganhamos o Prêmio Funarte Myriam Muniz. Outro projeto interessante da época era o espetáculo Macário, que montamos em Barueri e apresentamos em muitos outros palcos . O elenco era formado por Rui Ricardo, César Mello, Paulo Americo e André Collazzi, todos atores de Barueri, hoje consagrados.

E como entram a TV e o cinema na sua vida? É nesse período?

Sim . Fiz um teste pra interpretar Adoniran Barbosa no programa Por toda minha vida, da Rede Globo, dirigido por Fabricio Mamberti. O Programa chegou a concorrer ao Emmy americano. Em seguida gravei Viver a Vida de Manoel Carlos. Adoniran foi gravado antes da novela, mas foi ao ar depois. Em seguida vieram os filmes, peças e outras novelas.

O que muda na sua carreira com sua entrada para a TV?

A TV populariza a imagem, mas ainda assim é preciso tempo para o trabalho ser conhecido. Teatro, TV e cinema são muito diferentes, mas complementares para o trabalho do ator. De qualquer forma, a visibilidade que a TV oferece, favorece uma temporada teatral, especialmente quando você viaja com espetáculos.

Qual dos trabalhos na TV mais lhe agradou?

Vários que me encantaram. Por Toda Minha Vida (Adoniran), Viver a Vida, ambos na Globo, a série Vizinhos, da GNT, e Psi, da HBO, certamente são trabalhos marcantes.

cello-cenaE qual deles deu mais projeção para o grande público?

Viver a Vida, quando eu interpretava Gustavo. Era um personagem que tinha uma batida cômica e se metia em vários problemas amorosos.

O que você está fazendo atualmente?

Acabei semana passada a temporada da peça La Estupidez, acabei de gravar a terceira temporada de Psi e um projeto para a TV Cultura. Agora vou descansar um pouco porque no início do ano já retomo a produção de novos projetos de teatro pra estrear ainda no primeiro semestre.


Pode adiantar o que será?

Sim, claro. Escrevi um texto para crianças e adolescentes e estamos em processo de captação de recursos para a montagem. Há um outro projeto com adaptação do livro do escritor brasileiro Cristóvao Tezza, O professor. A busca por apoios é dura, mesmo tendo o projeto aprovado no Proac Icms, o que permite às empresas patrocinarem espetáculos abatendo o valor no imposto que pagariam ao Estado.  Então você tem que fazer tudo, escrever, produzir, atuar, captar recursos… Isso acontece muito para poder tocar os próprios projetos. É assim mesmo.

Ou seja, você tem de atuar em várias frentes, com necessidades diferentes, conhecimentos diferentes, planejar, estabelecer metas, prazos, dirigir equipes… então já está preparado para ser prefeito?

(longo silêncio) O teatro só pode acontecer com uma ação coletiva forte. Há sempre uma equipe por trás de qualquer espetáculo. Qualquer atividade cultural exige que pessoas atuem juntas para que o trabalho atinja o maior número de pessoas. O trabalho sempre é feito para o público, essa é a meta, atingir de forma positiva as pessoas. Essa é também a função do serviço público. Infelizmente, temos um quadro político doentio em nosso país. Os valores estão invertidos e os escândalos de corrupção mostram que o “público”, ou ainda, os interesses públicos foram deixados de lado. É triste ver a máquina pública sendo usada para interesses privados.

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